sábado, 1 de dezembro de 2007

Filme: "O Quarto do Filho"




"Giovanni, a sua mulher Paola, e os dois filhos adolescentes, Irene e Andrea, vivem uma pacata existência numa pequena cidade no Norte de Itália. No consultório, anexo à casa da família, Giovanni, psicanalista, recebe os seus pacientes, que lhe confiam as suas neuroses. Num domingo de manhã, Giovanni recebe um telefonema de um doente que precisa de o ver com urgência. Giovanni tem assim que cancelar a corrida que tinha programado com o filho, Andrea. O rapaz vai então mergulhar com os amigos...mas não volta."

Adiar uns minutos, umas horas com a familia, é como que adiar uma vida eterna de bons momentos. Por uma mudança de planos poder-se-á perder tudo o que se havia sonhado. Hoje em dia, as familias, os pais colocam o trabalho à frente da educação dos filhos. Ignoram a importância dos gestos de afecto, de carinho, dos momentos bem vividos em busca de alcançarem o sucesso profissional. E agora pergunto? De que lhes serve o sucesso...se podem perder o bem mais precioso das suas vidas...um ser humano que por acaso é seu filho.
Hoje em dia são raras as familias que vivem ou melhor convivem, compartilham, são raros os que se amam verdadeiramente.
E a questão ainda vai mais longe, se as familias são destruturadas como poderão haver amizades puras, univocas, sinceras, leais, compreensivas....Não sei talvez isso seja raro de encontrar.....Os valores perderam-se num mundo em que a hipocrisia persiste em caminhar.

O filme "O quarto do filho" é absorvente. Nele está patente a forma como as familias cuidam dos seus filhos, como são capazes de abandonar planos de um Domingo para ajudar outras pessoas.
Hoje em dia, vive-se em função de objectivos profissionais e caminha-se em torno de simples palavras como a ingratidão, a solidão, o desespero e a revolta.
Actualmente, só se dá valor às pessoas quando as perdemos.

by Zara Mesquita

2ª Critica cinematográfica

A VIDA É BELA, MAS...

A imagem de Andrea, camisola de fato de treino vermelha, correndo ao lado de Giovani, o pai, percorre todo o filme, conduzindo emocionalmente o espectador desde o “trailer” de promoção. Mas aquela corrida matinal não existiu verdadeiramente, Andrea já não pôde fazer aquele percurso com o pai. Na pequena cidade costeira do norte de Itália, onde todos se conhecem, ninguém mais poderá reconhecer aqueles dois naquele percurso e ele apenas existe na construção imaginária e delirante de um pai que desejaria ardentemente voltar atrás no tempo. De um pai que sofre com a impotência derivada da impossibilidade de alterar o passado, que se revolta com as explicações de fé dogmática sobre poderes de exclusividade divina, de um pai que mergulha em rituais de autoflagelação como estranho sedativo para a culpa que lhe queima o peito. Giovani bem pode olhar o caixão contendo o corpo sem vida do filho Andrea a ser lacrado e aparafusado, bem pode deixar-se asperamente sacudir num daqueles aparelhos de feira destinados a masoquistas, bem pode continuar a dialogar surdamente com o filho desaparecido, mas, o que o reputado e experiente psicanalista não consegue para si mesmo é a redenção emocional que a tragédia nele provocou.

Antes era apenas o norte de Itália, o beijo gelado das águas do Adriático, a cidade de Ancona. Era também a meticulosa construção narrativa, a antecipação, a errónea criação de expectativas para a tragédia, a estruturação dramática a requerer desenvolvimento. Duas vertentes foram privilegiadas antes do período de crise sobre o qual se constrói este filme tão simples de processos, mas tão intenso na ambiguidade de sentimentos que um determinado grave acontecimento pode proporcionar. De um lado a família feliz, Giovani, o pai e marido devoto, a mulher Paola e os dois filhos. Ele, Andrea, ela, Irene. Do outro lado o profissional competente e sereno numa actividade complexa, a psicanálise. De um e de outro lado, em conjunto, os pequenos problemas inerentes a cada uma das vertentes da vida, os prazeres normais que esta igualmente encerra. Até que numa manhã daquele que parecia vir a ser apenas mais um fim-de-semana, Giovani é obrigado a abdicar do “jogging” com o filho por motivo de uma chamada de um dos seus pacientes. E Andrea vai mergulhar com os amigos, vai mergulhar na embolia cerebral que o levará à morte, não haveria mais oportunidades para o “jogging” dos dois. Com a morte de um dos seus, a família inicia entre si um processo de desagregação. Enquanto Paola sofre a perda de modo consciente de que existira ali um fim, Giovani não supera o sucedido, não suporta a sua ausência forçada naquela manhã. Entre a dor de um e a revolta de outro, Irene, a outra filha, deriva até que igualmente naufraga.

«O Quarto do Filho» é um filme sobre a mais dolorosa das atrocidades para um pai (e mãe, obviamente), a perda de um filho. No entanto, e ainda que trate de um tema tão difícil e cuja essência dramática com facilidade poderia despertar a fácil emocionalidade no espectador, Moretti consegue fugir brilhantemente a essa vertente de menoridade cinematográfica por via de um claro distanciamento dos tão batidos estereótipos concepcionais do género. Como o próprio terá algures afirmado, longe dos seus habituais tiques e obsessões e na posse de uma acentuada maturidade, o realizador constrói uma atmosfera densa mas brutalmente real (com destaque para a cena do fecho da urna, de extremada potência em termos de choque emocional) e, evitando moralismos inconsequentes, o filme termina até de forma brilhante nunca mostrando a superação do drama familiar (superação de impossibilidade acentuada, acrescento eu) mas fazendo acreditar que é possível – creio mesmo que acima de possível, desejável – que o decurso normal das vidas deva prosseguir (aproveitando – e simbolizado – na ajuda exterior e tácita de Ariadne).

Excelente trabalho de actores, com relevo para o próprio Moretti e para a sua linda esposa no filme (Laura Morante), mas o simples benefício da dúvida para o registo de Giuseppe Sanfelica (o filho Andrea) por via de uma exacerbada demonstração de falta de entusiasmo. Muito mais que aquilo que o papel lhe pedia.

«La Stanza del Figlio» debruça-se pois, de forma sensível e inteligente, sobre uma das questões mais dolorosas relativas às adversidades e complexidades do homem e da família. A não perder.

by Joaquim Lucas

Um comentário:

Borboleta disse...

É verdade. Falamos tanto de valores mas pratica-lo na verdade é bem mais dificil.
O filme, sim é bastante bom. Faz-nos imaginar o porquê de muita coisa e as consequencias das nossas acções.
É aliciante o detalhe do filho ter não ter morrido por negligência mas por suicidio e ai é que o para mim destabliza a familia.
O porquê de ele fazer aquilo.

Um beijo;)