. Diz "huma tradiçaõ" que o nome de Abrantes se encontra
ligado à história da moura Záhára. Por boas ou más venturas.
. Ao autor não interessam as crenças, nem as factualidades.
. Os mistérios, sim. Ou a poesia, se quiserem.
. CITAÇÕES do bispo D. Fr. João da Piedade:
- "Hibrahim tinha huma filha donsella mui formosa, e
louçã, e gentil chamada Záhára..."
"... ou porque a belleza de Záhára o coraçaõ lhe ferira,
ou porque ella tinha feiço~es do rosto mui parecidas
com hum retrato da Virgem Nossa Senhora dos
Afflitos, que sua mãi lhe havia dado á hora da morte,
e que elle com muita devoçaõ trasia sempre consigo,
e havendo já per veses sonhado, que ao escalar os muros
de hum Castello, salvaria huma Donsella com cuja ca-
saria, julgou agora ver em Záhára a Virgem dos seus
sonhos".
"... e buscou per todos os meios honrosos ganhar o
coraçaõ de Záhára que ello naõ podia esquecer".
ZARA infere do tempo que aqueceu misturado no delírio real.
A sugestão dum nome no corpo anuncia uma lente que deixa o olhar
tranquilo e luminoso.
Título e memória.
" Le poème n'est pas un mécanisme de mots - il est un organisme ".
PIERRE GARNIER
Z
Nuvens azuis,
rio branco.
Alfabeto de flores
com sol verde pendurado nas janelas.
Raíz de pedra,
torre.
Imagem de quem nasce
no horizonte.
Alguns pássaros,
passos de gente.
Na estrada, pelo tempo,
vento lento, em castelo.
Mais côr leve,
chão de avenca e ázimo coração.
Uma tesoura feita de lâminas e água.
Monumentos de azulejo,
fáceis troncos arvóreos
qual misto de mármore
para o mar correndo.
Quartzo,
cal,
sombra,
sonhos.
Quem diz a ternura dos corpos
diz o inverno, essa mistura
de malvasia e amor,
de soturno jardineiro branco.
É pelas estações que se conhece a idade.
Talvez o rumo da história nascesse
antes de morrer
o que nas ruas tem a fala da memória.
Era um alto átomo, a vida
em canção,
e ouviu-se contar uma lenda,
multiplicada, quando eu passava no jardim.
Falo duma cidade,
antiga caixa de mortos e lêndias.
Hoje interminável
alegria,
glicínias.
Vou dizer que ao longo dos anos
a trovoada nasce
sobre um monte de casas
quando o verão aquece as serras.
Vê-las daqui cheias de chumbo
com riscos de lume na tela
e ah os estrondos
de cair o inferno.
Uma cidade treme por esquecimento
põem-se as luzes por cima das florescências
os homens são do tamanho das portas,
interminável o rio e o seu sopro.
Da areia falo
que no cofre das camionetas
um risco se deixa molhado
de peixes, por nascer, ao longo das estradas.
Antes escrever a palavra largo,
as artérias multiformes, montras,
e o povo porque não
com enxada e enxó.
Explica-se depois o sol.
Havia sempre uma floreira
ao lado duma mesa,
o convento de arcos.
Nesta dança cercada,
- a magia.
Imagem à beira de acontecer
o mistério do céu.
Mas esta cidade
por amor se perdeu, em Zara,
uma mulher.
As ruas nunca abaixo
acima se afirmam;
com gente à vida, nos parapeitos.
Nelas prendo meu acto
e minha âncora,
meu barco Tejo abaixo até ao tempo.
Varanda de ver o infinito,
o passo lento do para lá depois,
uma pausa, uma igreja,
a peleja dos dias intermináveis.
É da colina que eu vejo a cidade
ao subir a serpente.
E como de flores se veste um corpo de terra
resistindo no centro temporável.
Oh que de árvores
oh que já de cimento
ó que sinto
ó o ardor.
Vê-se daqui o sul,
o sol todos os dias ainda quando chove.
Há mártires pelas ruas,
o sossego numa navalha pressentida.
Divido o som duma cidade: entre:
este e este.
E qual deles ganha forma?
Falo-te em sílabas não imagináveis,
soletro o dorso do teu nome e recuso escrevê-lo.
Uma terra começa ao longo duma palavra
e significa.
Volto atrás porque não há árvores,
há corpos;
atrás porque não há nomes,
há sangue.
Vocês sabem os poemas de cor
e a côr,
vocês sabem a coragem,
mas dos nomes das ruas é que eu gosto.
Ó cidade porque te trato
e retrato por tu
em português?
Deixemos que um dia
te cravassem algumas espadas
e gravassem a imagem da tua honra,
deixemos.
Que vem da terra que não seja
quente?
Que vem da chuva senão a terra
molhada
e o seu aroma?
Que mistério renasce no relâmpago?
Que luzes queimam?
Que almas circulam?
- Como os vidros nos colocam contra nós!
Que texto é infindável?
Que vida se cumpre?
Que de teus olhos, cidade,
se viaja para lá entre longe?
Mantenho amar-te no que não sei.
Por vezes saio dentro duma concha
e a pérola
rescende
como se comesse
a primeira palavra do mundo:
os orégãos,
a ostra,
um certo visco branco,
vinho inesquecível
da videira inebriante.
Mais uma vez quanto quente
te exaltas e deitas e estremeces.
A frescura incendeia esta cidade,
o brilho do lume vem do impenetrável
sofrimento,
acresce a água por de debaixo
dum imenso véu de espuma.
Asperge-lhe uma flor,
um grande enorme magma.
Diria que na rua da barca
deste inferno
nasceu uma planta
que guardo dentro da pele.
Que outrora por aqui aconteceu?
Que milhafres?
Que riscos se escrevem hoje
com passos à medida
depois?
Retrato uma inteligência,
o saber do sabor profundo dos perfumes,
a maneira duma rua
como dantes.
Por aqui as pessoas sentam-se à mesa
pedem refrescos,
multiformes santuários,
dançam
no mais dentro labirinto.
Quem escolhe a terra que escolheu?
- a terra, e só!
Nada existe sem um corpo de morte.
Uma toalha branca é este centímetro de cal.
Por isso nos deixamos adormecer
indefinidamente.
Dizia se pudesse um nome.
Escrevê-lo-ía, contornando.
Para voltar.
Mas é a palavra que 'se'
esconde.
Deixei o nome atrás,
a palavra que pego agora,
bem posta, Zara amiga,
no rossio onde cantamos
ao longo dum rio de moínhos.
É quando arreciadas as mulheres
se colocam no alto das antenas
para anunciar
a emissão duma tragédia
(edo, edis, edere, edi, esum).
lépidas, tão sápidas, eloquentes.
O mosto é uma incineração doce,
disse S. Miguel.
Alva, vega uma ave
no espaço do rio interminável.
A batalha de Tramagal
square.
Esqueço nomes por adormecimento,
desfaço-os, refaço-os e desfaleço,
que um texto é uma tarântula minuciosa.
Porém, afago as terras indizíveis
e amo-as certiciturnamente.
Eu disse
o inominado.
Das luzes sei apenas o céu,
um deus de terra longínqua
que cabe na mão da palma dum canteiro,
florescendo.
Quase apetecia escrever:
"A ti Tágide minha...",
mas recuso.
Que "não" nasce numa palavra branca,
correndo?
Todos os anos, pelo menos,
uma criança morre no Tejo
e eu que estive lá
vejo
flores a crescer na areia
e a sua multiplicação
pelos jardins fronteiros
daqueles que um dia
vão ver os filhos morrer no Tejo.
Coisas.
Zara, que hora escolheste
para me escolher?
É de ti que há anos falo
nesta viagem
pelas outras cidades.
Todo o amigo que morre
em ti o enterro
para que floresça.
Onde vais rio que encanta?
Azar nosso, Zara,
se de Ulisses os ouvidos
não tivéssemos.
Acho que as coisas são mais simples e belas
que os poemas,
as pessoas não.
"Acabei de achar uma pedra
para pôr no museu
da imaginação".
Uma cidade nunca deve ser convexa,
côncava talvez,
cavada no mais íntimo da raíz
que um poeta que passa
é de graça, como vês.
Então como vamos de exílio?
E emigração?
E de canção?
Ó Botto da marinhagem!
Ó Camões da abordagem!
Ó O'Neill em que ano
tu estiveste no Pelicano?
Foi?
Ele há coisas, oméssa.
Como se apagaram as luzes. E é noite.
Vestido de pedra, um actor entra em cena,
Ó Taborda arranca-te ao jardim
viaja
Cá estou nas palmas, na (pla)teia de mim,
neste papel, de te fixar até ao infinito
Ouves?
O orfeão?
É assim.
Falava eu, portanto, dos filhos
que morrem no Tejo
e não precisava de ir tão longe
que eles morrem com o motor
da morte natural.
Uma cidade se não tiver
acontecimentos pequenos
não é grande.
Verdade?
Olho o rumor das encostas,
as estrelas que caminham,
o som das fachadas tranquilas.
Olho os desenhos, a fábrica das estrelas,
a miragem concreta dos rostos;
pétalas roxas
no tapete azul da colina de Stº António.
Olho a cruz dos dias
e um "álvares", em ferro, sobre os astros,
perdidamente.
Olho magicamente
o mapa
do teu corpo.
Olho os jardins,
os lírios;
líquidos os teus líquenes,
as amoras.
Olho as casas, as pessoas,
o tempo que as envelhece
e o desconhecimento disso.
Olho já depois de tudo acontecer,
a vida,
a peregrinação.
Olho-te, enlouquecendo.
Abrantes, cidade sem Ribatejo
nem Alentejo,
sem Beira nem eira
Tens um coração
que quer se queira
ou não
Bate
Bate
Baaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaate.
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